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Excesso de confiança ao volante: o que diz o estudo sobre segurança

Estudo revela excesso de confiança de motoristas em tecnologias, enquanto especialistas alertam para riscos e mortes no trânsito mundial.
Estudo revela excesso de confiança de motoristas em tecnologias, enquanto especialistas alertam para riscos e mortes no trânsito mundial.

Uma pesquisa internacional encontrou uma diferença ampla entre a confiança de quem usa as vias e a avaliação dos profissionais que projetam e operam sistemas de transporte. Nove em cada dez usuários disseram sentir-se seguros nos deslocamentos diários, mas apenas 45% dos especialistas concordaram.

O estudo “Safety in Motion: Driving Trust in Modern Mobility” foi produzido pela Economist Enterprise com apoio da Brembo. A amostra reuniu 6.157 participantes, incluindo mais de mil profissionais de transporte e mobilidade, em Brasil, China, França, Alemanha, Índia, Itália, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido e Estados Unidos.

Ilustração de motorista e recursos eletrônicos de segurança veicular
A assistência eletrônica pode reduzir riscos, mas não substitui a atenção e a responsabilidade do motorista.

Os resultados medem percepção, não demonstram que uma pessoa confiante causará um acidente. A principal contribuição do levantamento é mostrar onde usuários e especialistas avaliam o mesmo sistema de maneira diferente — e quais comportamentos ou mensagens podem aumentar essa distância.

Brasil está no grupo com maior diferença de percepção

Brasil, China e Índia formaram o grupo de maior contraste. Nesses países, 94% dos usuários declararam confiança alta nos deslocamentos, diante de 18% dos profissionais. A diferença é de 76 pontos percentuais. O mesmo conjunto de mercados registrou média de 16,2 mortes no trânsito por 100 mil habitantes, aproximadamente o dobro da média observada entre os dez países da pesquisa.

A confiança também não apareceu de forma uniforme. Usuários de menor renda tiveram quase o dobro da probabilidade de relatar confiança baixa ou mista em comparação com pessoas de renda média e alta. Entre gerações, 94% dos millennials declararam confiança elevada, enquanto 12% da geração Z e 16% dos baby boomers manifestaram confiança baixa ou mista.

Essas diferenças exigem cautela na interpretação. A pesquisa abrange grandes mercados produtores de veículos, mas não representa automaticamente todos os motoristas nem substitui estatísticas nacionais de acidentes. Ela ajuda a identificar percepções e preocupações dos grupos ouvidos.

Uso incorreto de assistentes preocupa especialistas

Somente 3% dos profissionais apontaram defeitos mecânicos como a principal origem dos problemas de segurança. Em contrapartida, 30% destacaram o uso incorreto ou a compreensão limitada de sistemas avançados de assistência ao motorista, conhecidos como Adas, e 24% citaram recursos capazes de desviar a atenção da via.

Os assistentes podem frear automaticamente, monitorar pontos cegos, emitir alertas e ajudar a manter o veículo na faixa. Essas funções têm condições e limites de operação. Elas não tornam o automóvel autônomo e não autorizam o motorista a retirar as mãos do volante, desviar a atenção ou deixar de acompanhar o trânsito.

A forma de apresentar a tecnologia também entrou na pesquisa. Entre os profissionais, 65% avaliaram que a publicidade pode exagerar capacidades, 62% disseram que mensagens comerciais podem sugerir menor necessidade de atenção e 60% apontaram destaque aos benefícios com pouca explicação das limitações.

Celular, velocidade e sistema viário continuam relevantes

A Organização Mundial da Saúde estima que 1,16 milhão de pessoas morram por ano em ocorrências de trânsito. A entidade afirma que mais da metade das mortes envolve usuários vulneráveis, como pedestres, ciclistas e motociclistas, e recomenda uma abordagem que combine vias, velocidades, veículos e comportamento seguros.

Entre os fatores de risco, a OMS destaca a distração por telefone. Motoristas que usam celular têm probabilidade aproximadamente quatro vezes maior de se envolver em uma colisão; o aparelho reduz o tempo de reação e dificulta manter faixa e distância. Sistemas de viva-voz não eliminam esse risco.

Portanto, tecnologia embarcada é apenas uma parte da prevenção. Fiscalização, infraestrutura, limites de velocidade, veículos seguros e atendimento após a colisão atuam em conjunto. Transferir toda a responsabilidade para o motorista ou para o automóvel ignora essa interação.

O que a pesquisa sugere

Apesar da confiança declarada, 88% dos usuários apoiaram medidas mais fortes de segurança, incluindo fiscalização e limites menores de velocidade, e disseram aceitar pagar mais por sistemas de transporte mais seguros. Já 68% dos profissionais apontaram a falta de coordenação entre reguladores e indústria como principal obstáculo ao avanço.

O dado central não é que a inovação tenha falhado, mas que confiança precisa acompanhar evidência, comunicação clara e compreensão dos limites. Assistência eletrônica, educação, engenharia e políticas públicas produzem melhores resultados quando o condutor sabe exatamente o que o sistema faz — e o que continua sob sua responsabilidade.

Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações…

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