Citroën DS usava suspensão hidropneumática autonivelante, podia elevar a própria carroceria e conseguia se movimentar apoiado em apenas três rodas.
Um automóvel com uma das rodas traseiras suspensa ou retirada normalmente ficaria imobilizado. No Citroën DS, porém, a combinação entre tração dianteira, distribuição de peso e suspensão hidropneumática permitia que o veículo continuasse se movimentando apoiado sobre apenas três rodas.
A capacidade não surgiu como um truque criado exclusivamente para exposições. Era uma consequência do avançado sistema hidráulico desenvolvido para manter a carroceria nivelada, controlar sua altura e compensar automaticamente mudanças de carga.
O DS também conseguia elevar a própria carroceria quando um pneu precisava ser substituído. Em determinadas condições, o sistema dispensava o uso de um macaco externo convencional, algo praticamente inacreditável para um automóvel apresentado em 1955.
A própria Citroën registra que a suspensão hidropneumática, combinada à direção assistida, proporcionava estabilidade suficiente para que o DS rodasse sobre três rodas. A demonstração tornou-se uma das imagens mais conhecidas da engenharia francesa.
Citroën DS podia rodar com uma roda traseira fora do chão
O DS utilizava tração dianteira, o que significa que o motor transmitia sua força às rodas da frente. Como a roda ausente nas demonstrações geralmente era uma das traseiras, as duas rodas responsáveis por movimentar o automóvel continuavam apoiadas no solo.
A suspensão hidropneumática mantinha a carroceria sob controle mesmo quando o apoio deixava de estar distribuído entre os quatro cantos. O sistema ajustava a altura de cada eixo e reduzia a inclinação que normalmente faria um carro comum tocar o chão ou perder estabilidade.
A Citroën confirma oficialmente que a combinação entre suspensão hidropneumática e direção assistida permitia ao DS se movimentar apoiado em três rodas. Isso não significa que o veículo tivesse sido projetado para circular normalmente dessa maneira, mas demonstra a margem de funcionamento criada pelo projeto.
Realizar esse tipo de demonstração em vias públicas seria perigoso e poderia violar normas de trânsito. A capacidade deve ser entendida como uma característica histórica e técnica, não como uma recomendação de uso.
Suspensão não utilizava molas metálicas convencionais
O segredo estava nas esferas hidropneumáticas instaladas no sistema. Em vez de depender exclusivamente de molas helicoidais ou feixes de molas metálicas, o DS utilizava gás sob pressão e fluido hidráulico para sustentar e amortecer a carroceria.
Cada esfera possuía gás inerte em uma parte e fluido hidráulico na outra, separados internamente. Quando a roda passava por uma irregularidade, o movimento pressionava o fluido contra o gás, que era comprimido e funcionava como elemento elástico.
Uma bomba acionada pelo motor mantinha o circuito hidráulico pressurizado. O fluido era enviado aos componentes da suspensão, enquanto corretores de altura ajustavam o nível da carroceria conforme a carga e as condições de uso.
A Citroën descreve o conjunto como um sistema sem molas metálicas convencionais, desenvolvido pelo engenheiro Paul Magès. A ausência de contato direto entre elementos metálicos reduzia impactos secos e produzia a sensação de que o automóvel flutuava sobre o pavimento.
Carroceria permanecia nivelada mesmo com passageiros e bagagem
Em um automóvel tradicional, colocar pessoas ou objetos pesados no porta-malas comprime as molas traseiras. A parte de trás se aproxima do solo, enquanto a frente pode ficar mais elevada.
No DS, o sistema identificava a mudança na altura e aumentava a pressão hidráulica necessária para recuperar o nível programado. A carroceria voltava à posição correta mesmo com alterações na quantidade de passageiros ou bagagem.

Esse funcionamento autonivelante ajudava a preservar a geometria da suspensão, a estabilidade e o comportamento aerodinâmico. A Citroën afirma que o sistema mantinha o automóvel nivelado e reduzia movimentos excessivos da carroceria durante frenagens e curvas.
A mesma capacidade de correção ajudava o DS a permanecer apoiado sobre três rodas. Quando um ponto traseiro deixava de sustentar o veículo, o circuito hidráulico contribuía para manter os outros apoios em posições compatíveis com o deslocamento.
Motorista podia escolher diferentes alturas em relação ao solo
O Citroën DS permitia alterar manualmente a altura da carroceria. O motorista podia elevar o veículo para atravessar lama, neve, estradas irregulares ou obstáculos que poderiam atingir sua parte inferior.
Em condições normais, a suspensão retornava à altura adequada para o deslocamento rodoviário. Essa regulagem também permitia abaixar a carroceria quando necessário.
A Citroën informa que o controle de altura ajudava o DS a enfrentar terrenos difíceis, incluindo pistas ruins, lama, neve e gelo. Era uma característica particularmente incomum em uma época na qual a maioria dos automóveis possuía suspensão passiva e altura fixa.
O recurso não transformava o modelo em um veículo fora de estrada. Sua função era ampliar a capacidade de superar condições adversas sem abandonar o conforto e a estabilidade esperados de um automóvel de luxo.
DS conseguia levantar a própria carroceria para trocar o pneu
A pressão hidráulica também permitia elevar o automóvel durante uma troca de roda. A própria Citroën afirma que o DS conseguia levantar sua carroceria quando enfrentava um pneu furado.
O automóvel possuía um suporte específico para estabilizar a estrutura. Ao utilizar o controle da suspensão, era possível modificar a posição da carroceria até deixar a roda necessária sem carga.
Por isso, o sistema podia substituir a função principal de um macaco automotivo externo. A operação ainda exigia ferramentas para remover a roda e procedimentos seguros de apoio, mas a força usada para elevar o veículo vinha de seu próprio circuito hidráulico.
A característica tornou o DS um dos poucos automóveis de grande produção capazes de participar ativamente da própria troca de pneu por meio da suspensão original de fábrica.
Sistema hidráulico controlava muito mais do que a suspensão
O circuito de alta pressão não se limitava ao conforto dos ocupantes. No DS, a tecnologia hidráulica também participava do funcionamento dos freios, da direção assistida, da embreagem e, em determinadas configurações, da seleção das marchas.
Isso transformava o automóvel em um sistema profundamente integrado. Uma bomba central fornecia pressão para diferentes equipamentos que, em outros carros, funcionavam de forma mecânica ou por circuitos separados.
Os freios utilizavam assistência hidráulica e discos na dianteira. A resposta era tão diferente dos sistemas convencionais da época que motoristas precisavam se adaptar à sensibilidade do comando.
A direção assistida reduzia o esforço necessário para manobrar, enquanto a transmissão semiautomática utilizava o circuito para comandar funções que normalmente dependeriam de um pedal de embreagem convencional.
Essa integração ampliava a sofisticação, mas também exigia manutenção especializada. Uma falha importante no circuito poderia afetar mais de uma função do automóvel.
Projeto levou 17 anos para chegar às ruas
O desenvolvimento começou em 1938, dentro do programa chamado VGD, abreviação francesa para veículo de grande difusão. O objetivo era criar um substituto avançado para os modelos superiores da Citroën.
O engenheiro aeronáutico André Lefèbvre trabalhou na tração dianteira, aerodinâmica, redução de peso e concentração das massas. Paul Magès desenvolveu o sistema hidráulico, enquanto o escultor e designer Flaminio Bertoni definiu a carroceria.

O resultado foi revelado em 6 de outubro de 1955, no Salão do Automóvel de Paris. Além da suspensão, o público encontrou uma carroceria aerodinâmica, painéis parcialmente removíveis, direção assistida e freios dianteiros a disco com assistência hidráulica.
A documentação histórica da marca registra que cerca de 80 mil encomendas teriam sido recebidas durante os dez dias da exposição. A própria DS Automobiles apresenta o número como parte da narrativa histórica associada ao lançamento.
Desenho parecia ter vindo de outra época
A aparência do DS era tão incomum quanto sua mecânica. A dianteira baixa, a traseira afilada, as rodas parcialmente cobertas e a grande área envidraçada contrastavam com os automóveis de linhas retas e carrocerias elevadas dos anos 1950.
O desenho não tinha apenas função estética. A carroceria foi trabalhada para reduzir resistência ao ar, ruídos e instabilidade em velocidade.
O modelo media aproximadamente 4,87 metros de comprimento, 1,82 metro de largura e 1,47 metro de altura na configuração apresentada pelo acervo Citroën Origins. O peso indicado para o exemplar é de cerca de 1.310 quilos.
A combinação entre desenho futurista e movimento suave ajudou a criar o apelido de disco voador. A suspensão fazia a carroceria subir depois que o motor era ligado e descer gradualmente quando a pressão hidráulica era liberada.
Estabilidade entrou para a história política da França
A capacidade de manter o controle em condições adversas ganhou um episódio histórico em 22 de agosto de 1962. O Citroën DS presidencial que transportava Charles de Gaulle foi atingido durante o atentado de Petit-Clamart.
A DS Automobiles atribui à suspensão hidropneumática papel importante na fuga do veículo, apesar dos danos sofridos durante o ataque. O automóvel conseguiu deixar a região e transportar o presidente francês para um local seguro.
O episódio reforçou a reputação de estabilidade do modelo e ajudou a transformá-lo em símbolo oficial francês. Diferentes versões do DS foram utilizadas por autoridades e chefes de Estado.
A associação com o governo não se limitava à imagem. O conforto em baixa velocidade, a capacidade de manter a carroceria nivelada e a estabilidade eram adequados a cerimônias, desfiles e deslocamentos oficiais.
Citroën DS também venceu provas de rali
Embora fosse conhecido como um automóvel confortável e sofisticado, o DS participou de competições. Poucos meses depois do lançamento, seis unidades chegaram ao fim do Rali de Monte Carlo de 1956, e o modelo conquistou destaque em sua categoria.
Em 1959, um ID 19 venceu a classificação geral do Rali de Monte Carlo. Outra vitória ocorreu em 1966, com uma versão DS 21.
A suspensão com grande capacidade de absorção ajudava em pisos irregulares, trechos de baixa aderência e provas longas. Enquanto concorrentes enfrentavam impactos mais severos, o conjunto hidropneumático conseguia manter contato consistente dos pneus com o terreno.
As vitórias demonstraram que o sistema não servia apenas para proporcionar conforto em estradas pavimentadas. A tecnologia também contribuía para controle, resistência e velocidade em terrenos difíceis.
Faróis passaram a acompanhar as curvas
Em 1967, uma reformulação introduziu faróis direcionais em determinadas versões. Os elementos internos acompanhavam o movimento da direção e iluminavam a parte interna das curvas.
O recurso surgiu décadas antes de sistemas eletrônicos modernos capazes de ajustar o facho conforme o volante, a velocidade e as condições da estrada.
O mecanismo se somava à suspensão, aos freios hidráulicos e à direção assistida para reforçar o caráter tecnológico do modelo. No Citroën DS, diferentes soluções não funcionavam como acessórios isolados, mas como partes de uma proposta completa de condução.
Mais de 1,45 milhão de unidades foram produzidas
A família DS e ID permaneceu em produção durante aproximadamente 20 anos. Entre 1955 e 1975, foram fabricadas 1.456.115 unidades, considerando os diferentes modelos e configurações da linha.
A última unidade saiu da fábrica de Quai de Javel, em Paris, em 24 de abril de 1975. Era um DS 23 Pallas com injeção eletrônica, pintado em azul Delta.
Ao longo dessas duas décadas, o automóvel recebeu motores mais potentes, novas transmissões, versões luxuosas, peruas, conversíveis e configurações destinadas ao transporte oficial.
Apesar das atualizações, o princípio da suspensão hidropneumática permaneceu como sua principal assinatura técnica.
Rodar sobre três rodas era consequência de um projeto completo
A imagem de um DS circulando com uma roda fora do chão pode parecer apenas uma exibição publicitária. Entretanto, ela concentrava diversas características reais do veículo.
A tração dianteira mantinha as rodas motrizes apoiadas, o sistema hidráulico controlava a altura, a suspensão autonivelante corrigia a posição da carroceria e a distribuição de peso permitia preservar os três pontos necessários de sustentação.
Não era uma capacidade criada por um dispositivo adicional instalado para demonstrações. Ela resultava da arquitetura originalmente desenvolvida para oferecer conforto, estabilidade e controle.
Por isso, o Citroën DS permanece como um dos automóveis mais avançados de sua geração. Ele não apenas conseguia se movimentar sobre três rodas, mas mostrava como a integração entre hidráulica, aerodinâmica, suspensão e tração poderia produzir comportamentos impossíveis para carros convencionais da mesma época.







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